Adepto-estátua volta a ocupar o seu lugar em silêncio
Há figuras no futebol que não entram apenas pelo jogo jogado, mas pela forma como transformam o próprio acto de estar num estádio.

Michel Kuka Mboladinga, conhecido como o “adepto-estátua” da RD Congo, é uma dessas presenças raras que parecem desafiar a lógica do espectáculo.
Desta vez, foi visto no estádio a assistir ao jogo frente à Colômbia, depois de ter falhado a estreia contra Portugal, num contratempo burocrático que o deixou à porta do sonho: o visto para os Estados Unidos não chegou a tempo.
A ausência no primeiro jogo não apagou o mito. Pelo contrário, aumentou a expectativa em torno da sua figura silenciosa, que já se tornou parte do imaginário da CAN’2025, onde a sua presença é quase tão comentada como os golos.
O seu ritual é simples e desconcertante: permanece de pé durante os jogos, praticamente imóvel, como se o tempo lhe fosse indiferente. Um gesto que nasceu como homenagem a Patrice Lumumba, antigo primeiro-ministro do Congo, símbolo maior da luta e da dignidade africana, assassinado em 1961.
Patrice Lumumba tornou-se, assim, a referência espiritual deste gesto silencioso, transformando uma bancada de futebol num espaço de memória e resistência.
No meio do ruído das claques, dos cânticos e da euforia habitual, Mboladinga impõe um contraste quase desconcertante: não celebra, não gesticula, não se distrai. Apenas está. E esse “estar” parece dizer mais do que muitos gritos.
E talvez seja isso que o torna inesquecível. Num mundo de futebol acelerado, onde tudo passa depressa, o “adepto-estátua” lembra que há formas de paixão que não precisam de movimento para serem profundamente vividas.






