
Tal como Fernando Gomes nos ensinou, Vinícius também tem direito a celebrar os golos que o bibota apelidava de «orgasmos». O racismo é uma vergonha ‘sem mas nem meio mas’! ‘Hat trick’ é o espaço de opinião semanal do jornalista Paulo Cunha
Fernando Mendes Soares Gomes. Eternamente, Gomes, o bibota. Dizia ele — numa das frases que povoa o imaginário de muitos de nós que crescemos nos anos 80 — que «marcar um golo é como ter um orgasmo». Ao serviço de FC Porto (355), Gijón (16), Sporting (38) e Seleção Nacional (11), foram 420 as vezes que tocou o céu.
Durante noventa minutos e uns pozinhos, o futebol é tensão, é cálculo cada vez mais matemático para se ocuparem espaços ao centímetro, é receio de falhar e entrar na história pelas piores razões. O golo quebra tudo isso, é um instante de libertação, de alegria pura, de afirmação. Alguém, em miúdo, sempre que escolhíamos linhas para mais uma final na rua ou no recreio da escola, se oferecia para ir à baliza?
Quando Vinícius assinou, na Luz, o golo que redundaria na derrota do Benfica diante do Real Madrid, na primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, estava só a celebrar a beleza e importância do momento. Se o contentamento de um jogador é visto como uma afronta, se os festejos são encarados como uma provocação, se a dança do brasileiro junto à bandeirola de canto incomoda, azar o dos lesados.
Quantas vezes Ronaldinho Gaúcho sambou após balançar as redes? E Lamine Yamal? E Cristiano Ronaldo nunca mandou calar os adeptos depois de faturar? Ele e tantos outros? Até se viu, em São Petersburgo, num Zenit-FC Porto, da Champions, em setembro de 2011, Danny a comemorar um golo da equipa russa enquanto imitava um cão a urinar…
Pelo meio, ficou também o confronto com Prestianni, ainda envolto em versões contraditórias e à espera das conclusões de quem investiga o que foi dito e por quem. O que sabemos, por agora, é que Vinícius se sentiu alvo de um insulto ligado à cor da pele, que o protocolo antirracismo foi ativado e que a UEFA abriu um processo para apurar factos.
No lugar do extremo argentino, se fosse acusado de algo que não tivesse feito, teria trepado pelas paredes tal a revolta e no final da partida, antes sequer de entrar no balneário, passaria pela zona mista para desmentir e contrariar rapidamente as acusações de Vinícius. Calar-me não seria opção, nem que santos da paróquia da verdade desportiva descessem à terra a sugerirem que mentir seria uma boa solução para fugir à polémica.
Goste-se ou não do estilo de Vinícius, assobiem-se ou aplaudam-se as genialidades e/ou tropelias do craque, nada pode servir para, direta ou indiretamente, relativizar o inaceitável — os insultos racistas que se ouviram nas bancadas da Luz. O racismo não tem contexto que o explique. Não há gesto de Vinícius que o justifique. O racismo é sempre responsabilidade exclusiva de quem o pratica e tentar enquadrá-lo como consequência de um festejo alheio é desviar o foco do essencial. É transformar a vítima no problema. O racismo é uma vergonha sem mas nem meio mas!
Aconselharia José Mourinho a refletir sobre este sem mas nem meio mas. As palavras do atual treinador do Benfica, findo o jogo de terça-feira, ao deixar reparos à maneira como Vinícius vibra em campo, ecoaram e tiveram um efeito boomerang. O special one, conhecido por episódios igualmente provocadores no trajeto para vitórias inesquecíveis, de Old Trafford a Camp Nou, já para não recordar narizes apertados ou dedos nos olhos de colegas de profissão, a criticar Vinícius por… excessos. Olha para o que eu digo…
O Benfica tem uma história maior do que qualquer incidente, mesmo que grave e noticiado à escala planetária. Uma história que merece ser honrada com clareza moral. E aqui, sim, vale a pena lembrar o nome do monstro sagrado Eusébio da Silva Ferreira, ao invés de invocá-lo em vão.
O silêncio ou a ambiguidade nunca foram aliados da grandeza dos clubes e os energúmenos que imitam macacos em espetáculos desportivos fazem-no sem esconder gestos ou tapar a boca — logo, para começar, é identificá-los e puni-los.





