Moçambicanos voltam a arriscar a África do Sul apesar do clima de xenofobia
Falta de trabalho em Moçambique leva cidadãos a regressarem à "Terra do Rand", mesmo com marchas anti-estrangeiros a manterem-se todas as quintas-feiras

Apesar da continuidade das manifestações contra cidadãos estrangeiros na África do Sul, um número significativo de moçambicanos está a retomar o caminho de regresso a esse país. Nos terminais internacionais da Baixa e da Junta, em Maputo, as associações de transporte já conseguem preencher até cinco viaturas com capacidade para 15 lugares, todas com destino a diferentes pontos da vizinha nação.
Entre os que decidiram voltar está Rosa Nhamue, proprietária de um salão de beleza num bairro periférico de Joanesburgo, onde trabalha há cinco anos. A empresária tinha regressado a Moçambique na sequência do ultimato lançado pelos líderes do movimento March and March aos estrangeiros em situação irregular, mas poucas semanas depois optou por embarcar de novo rumo ao país onde garante o seu sustento. Também Fenias Mafumo, com atividades profissionais consolidadas em solo sul-africano, decidiu regressar após receber garantias de amigos locais de que a situação estaria a normalizar.
Este movimento de retorno surge num contexto em que a falta de oportunidades de trabalho em Moçambique continua a pesar mais do que o receio da violência xenófoba. Os próprios protagonistas admitem viver momentos de incerteza, mas explicam que a ausência de alternativas económicas no país de origem os obriga a arriscar novamente a travessia para a África do Sul.
Transporte para a África do Sul regressa à normalidade
Segundo os transportadores internacionais que operam na Baixa e na Junta, tem-se registado um movimento relativo de passageiros à procura de lugares para a África do Sul nos últimos dias. Jonas Fumo, responsável de uma associação sediada na Junta, confirma que a procura já recuperou, com a possibilidade de colocar entre três a cinco viaturas em circulação por dia, um contraste evidente com o período mais crítico, em que mal se conseguia preencher um ou dois carros.
Quem regressa reconhece que a xenofobia não desapareceu, mas garante que a tensão já não é comparável à dos dias mais críticos. Ainda assim, as marchas semanais às quintas-feiras continuam a gerar receio entre a comunidade moçambicana residente na África do Sul, obrigando muitos a redobrar precauções mesmo depois de decidirem voltar.
Nos últimos dias, Moçambique tem funcionado como corredor de passagem para cidadãos africanos que procuram regressar aos respetivos países de origem, fruto direto da instabilidade gerada pelas ondas de violência xenófoba na região. A evolução da situação nas próximas semanas deverá continuar a ditar o ritmo destes movimentos migratórios, entre o medo da violência e a necessidade de garantir o sustento das famílias.






